Por: Fábio Bezerra – Advogado – OAB/MS 21.298
Fala-se hoje em burnout como se fosse uma descoberta recente, uma patologia surgida do nada, quase um acidente da modernidade. No entanto, para quem observa o mundo do trabalho com um mínimo de atenção histórica e social, trata-se apenas de mais um nome técnico para uma velha realidade: o esgotamento sistemático da força humana em nome da produção. Há cerca de vinte anos, um médico — cardiologista e também homeopata — já descrevia o burnout como uma doença progressiva. Começava no cansaço crônico, passava pela irritação e pelo desinteresse e culminava no estágio mais grave: a insensibilidade diante da dor alheia.
No caso dos médicos, isso significava não mais se afetar pelo sofrimento do paciente. Em outras profissões, significa algo semelhante: o apagamento da empatia, da criatividade, do sentido. Hoje, quando a grande imprensa aborda o tema, o faz com outro foco. O alarme não é humano, é fiscal. O medo não é o sofrimento do trabalhador, mas a “explosão de auxílios-doença”, o impacto nas contas públicas.
A pergunta central não é “por que as pessoas adoecem?”, mas “quanto isso vai custar?”. A lógica é reveladora. A resposta para o crescimento do burnout está longe dos consultórios e muito mais perto do ponto de ônibus. O trabalhador entra às oito da manhã, mas sai de casa às seis — ou antes. Café apressado, quando há. Transporte lotado, quando passa. Duas, às vezes três conduções. Para muitas mulheres, ainda há o assédio cotidiano, naturalizado, silenciosamente tolerado. Antes disso, a jornada invisível: comida preparada, filhos organizados, roupa no varal, água que talvez falte.
O burnout começa antes do expediente. O trajeto diário da classe trabalhadora no Brasil sempre teve o mesmo desenho, apenas muda o veículo. Ontem, navio negreiro. Depois, pau-de-arara. Hoje, metrô, trem e ônibus superlotados. A lógica permanece: corpos comprimidos, tempo roubado, dignidade suspensa. Quatro ou cinco horas diárias consumidas em deslocamento não são “custo colateral”; são parte estrutural do esgotamento. Não surpreende que o consumo de medicamentos aumente. Três, quatro, cinco remédios por pessoa. Remédios que não curam a causa, apenas anestesiam o sintoma. Um sopro temporário sobre a ferida aberta. Enquanto isso, fígado e rins sobrecarregados, orçamento doméstico comprometido e a vida seguindo no piloto automático. E então surgem os discursos sobre “baixa produtividade”.
Como produzir mais e melhor sob esse regime? Como exigir excelência de quem vive permanentemente cansado, mal alimentado, mal transportado, mal remunerado e mal tratado? A pergunta, na verdade, nunca foi honesta. Não é por acaso que cresce, de forma quase unânime, a rejeição à escala 6×1 e às jornadas extenuantes, sobretudo entre comerciários, frentistas, trabalhadores de bares e serviços essenciais. Quase ninguém aguenta mais. E quando se pergunta se o patrão trabalha aos domingos, a resposta é previsível: não. A lógica da casa-grande permanece intacta; a senzala apenas mudou de forma.
Esse regime de estafa não é um desvio do sistema — é seu funcionamento normal. Ele nasce de um modelo de produção que historicamente tratou gente como recurso descartável. O mesmo modelo que sustentou 354 anos de escravidão no Brasil, que Darcy Ribeiro descreveu como uma “máquina de moer gente”. O burnout contemporâneo é herdeiro direto dessa engrenagem. Mesmo quem tenta fazer diferente enfrenta limites estruturais. Pequenos empresários, microempreendedores, muitas vezes desejam preservar suas equipes, mas operam com margens mínimas, esmagados por um sistema que concentra ganhos no topo e distribui desgaste na base.
A pergunta final, portanto, não é médica, nem individual. É política, econômica e moral: por que devemos trabalhar tanto? Por que devemos gastar boa parte da vida em deslocamentos desumanos? Produzir o quê, para quem, e a que custo ? Enquanto essa pergunta não for enfrentada de forma honesta, o burnout continuará sendo tratado como doença do indivíduo — quando, na verdade, é sintoma de uma sociedade doente.